[Acta no Estado de Minas] Brasileiros aproveitam férias remuneradas para investir em viagens e compras

Abono de férias pago aos trabalhadores formais movimenta R$ 33 bilhões no Brasil. Boa parte investe o recurso no lazer, mas há também os que aproveitam para equilibrar o orçamento.

Graziela Reis – Estado de Minas
Publicação: 05/01/2014 06:00 Atualização: 05/01/2014 07:21

A dentista Ana Letícia Couto investiu 95% do um terço de férias em sua viagem para o México

A dentista Ana Letícia Couto investiu 95% do um terço de férias em sua viagem para o México

Férias no Brasil podem significar ficar de pernas para o ar, viajar ou contar com uma renda extra equivalente a um terço do salário para gastar com o que quiser. Esse benefício, já incorporado à folha de pagamento dos trabalhadores formais do país, movimenta uma bolada de aproximadamente R$ 33 bilhões.

"Só no Brasil é que o patrão paga para o empregado tirar férias" - José Carlos Vieira, diretor da Acta Turismo

“Só no Brasil é que o patrão paga para o empregado tirar férias” – José Carlos Vieira, diretor da Acta Turismo

Mas os 50,6 milhões de pessoas que recebem essa renda extra quando tiram seus merecidos dias de descanso nem sempre destinam o dinheiro para viagens. O conhecido “um terço de férias” também é usado para pagar dívidas, bancar cursos e até para comprar algo que normalmente não daria para levar para casa contando apenas com o rendimento mensal normal. Em Minas Gerais, o benefício movimenta perto de R$ 2,8 bilhões por ano, sendo que o período mais forte de pagamento é entre dezembro e fevereiro, a tradicional época de férias.

Segundo o coordenador de Relações Sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em São Paulo, José Silvestre Prado de Oliveira, não existem levantamentos que comprovem que o um terço de férias faz parte das conquistas apenas dos trabalhadores brasileiros. “Não sei dizer se há em outros países ou se existem formatos parecidos. Aqui já é incorporado à folha de pagamento, assim como o 13º salário”, observa. Para ele, não deixa de ser uma renda extra que tem a sua importância para a economia brasileira. Como no ano passado o 13º salário movimentou cerca de R$ 143 bilhões no país, sendo perto de R$ 100 bilhões relacionados aos trabalhadores com carteira assinada, o um terço de férias é correspondente a um terço desse valor, ou R$ 33 bilhões. Para ele, como o recurso é atrelado ao tradicional mês de descanso, boa parte das pessoas que recebe o benefício costuma direcioná-lo para o lazer. “Há uma impressão, um senso comum, de que o dinheiro será usado para viagens ou compras.”

A dentista Ana Letícia Couto Machado, de 34 anos, seguiu à risca e gastou parte de seu benefício com as férias. Este ano foi o primeiro de sua vida em que recebeu o abono, pois antes era autônoma e agora trabalha com carteira assinada. “É ótimo ganhar esse dinheiro extra e chega em uma boa hora. Apliquei cerca de 95% do que recebi nas férias mesmo”, afirma. Ela viajou com uma amiga para Playa del Carmen, no México, em 25 de dezembro.

“Só no Brasil é que o patrão paga para o empregado tirar férias”, afirma o diretor da Acta Turismo, José Carlos Vieira. Ele já viajou para diversos países e nunca soube de prática semelhante. “O Valter Patriani (superintendente de Vendas, Produtos e Marketing da CVC, maior operadora de turismo do país) sempre lembra isso em suas palestras”, conta Vieira, que passou a procurar saber sobre a legislação trabalhista de outras regiões do mundo depois que participou de um desses eventos. Para ele, no entanto, o setor turístico ainda tem muito que trabalhar para conseguir fisgar o dinheiro daqueles que recebem o abono. “Ainda tem muita gente que não usa esse dinheiro para férias”, diz. Entre os clientes de sua agência, ele calcula que apenas 25% gastam o benefício com a compra de pacotes de viagens. “Vemos aí um grande potencial para ser explorado.”

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Paula Loque, com o filho Rafael: alunos costumam usar o recurso para quitar o curso de mergulho

OPÇÕES Tendo em vista que no país o salário médio do trabalhador formal está em R$ 1.988, segundo o Dieese, com um terço desse valor é possível, segundo Vieira, comprar um pacote com hotel e passagens aéreas para passar sete dias em Porto Seguro, na Bahia, em baixa temporada. Um trabalhador que ganha cerca de R$ 7 mil também pode usar o seu um terço de férias para comprar um pacote para Punta Cana, na República Dominicana, que sai a partir de R$ 2,5 mil. “Quando usa o dinheiro nas férias, o trabalhador volta renovado”, observa o empresário.

O presidente da Fundação Perseu Abramo, Márcio Pochmann, explica que o um terço de férias faz parte do custo da empresa com o trabalhador. “É obrigatório e pago na forma líquida”, afirma o especialista, que é ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “É um benefício do Brasil. Se existe em outros países, não é uma prática comum. Em cada lugar do mundo há um ritual próprio”, pondera.

Pochmann observa que o pagamento de um terço do salário na época das férias é bom para a economia: “É bem-vindo”. E tem se tornado mais frequente, uma vez que, a cada 10 postos de trabalho no país, nove são de assalariados, segundo ele. “Tem mais gente com acesso ao benefício.” Mas é um dinheiro que acaba diluído no decorrer do ano. “É bem diferente do 13º salário, para o qual o comércio e a indústria se preparam para recebr”, diz.

Necessidade dita o uso

Apesar de receber o nome de um terço de férias, boa parte dos brasileiros usa a renda extra para equilibrar o orçamento. É o que faz a vendedora Paula Cristina Fernandes, de 34 anos. “Costumo depositar o dinheiro para usar em emergências”, afirma. Ela o usa para quitar alguma dívida pendente ou complementar a renda em um momento de necessidade. “Quando dá, também viajo, mas depende da época”, conta.

Paula Fernandes prefere guardar o dinheiro para ter garantias em momentos de necessidade

Paula Fernandes prefere guardar o dinheiro para ter garantias em momentos de necessidade

A coordenadora do Departamento de Economia da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Ana Paula Bastos, acredita que boa parte do um terço de férias é direcionada para o pagamento de dívidas. “Também tem os que usam em viagens”, afirma. Para ela, a menor parte vai para compras. “Mas nesta época há muitas promoções e o trabalhador pode resolver adquirir algum produto por uma questão de oportunidade.”

O pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Mário Rodarte lembra que o trabalhador deve ficar atento porque o dinheiro a mais na conta das pessoas pode realmente levar ao consumo ou ao gasto com lazer. “Há uma propensão a usar essa renda adicional, a efetivar planos que não são executados em outras ocasiões, mas as pessoas que não têm um controle financeiro podem acabar mais endividadas”, observa. Para evitar desequilíbrios e uma “ressaca dos gastos em excesso” depois das férias, ele acredita ser coerente guardar parte desse recurso. Para aqueles que têm dívidas, ele recomenda quitá-las.

Há ainda os brasileiros que destinam o abono das férias para o pagamento de cursos. Segundo a proprietária da Escola de Mergulho Mar a Mar, Paula Pessanha Loque, uma parte dos alunos usa o recurso para fazer as aulas. O pacote do curso básico sai por R$ 1.299. “É um dinheiro útil. É bom para o nosso mercado”, afirma a empresária, que tem 40% dos alunos procurando os cursos de mergulho nesta época de verão. (GR)

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